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Reflexão

Está mais perto do que pensamos

Uma reflexão sobre teshuvá, mudança e os pequenos passos que já estão ao nosso alcance.

02 de setembro de 2026
ElulTeshuváTorahDevarimRetorno
Está mais perto do que pensamos

Há momentos em que sabemos o que precisa ser feito, mas transformamos a distância em justificativa.

Precisamos mudar alguma atitude, mas parece difícil demais. Queremos estudar mais, mas nunca encontramos o momento ideal. Sabemos que uma relação precisa ser reparada, mas adiamos a conversa. Percebemos que determinada área da vida precisa de mais disciplina, mas pensamos que começar exigirá uma mudança grande demais.

A Torah apresenta uma resposta muito direta para esse sentimento.

Devarim (Deuteronômio). 30:11

11 Porque este mandamento que eu te ordeno hoje não te é encoberto nem está longe de ti.

Moshé fala ao povo pouco antes de sua despedida. Depois de apresentar o caminho da vida, do retorno e da fidelidade ao Eterno, ele deixa algo muito claro: aquilo que o Eterno espera de nós não está escondido em algum lugar inacessível.

A Torah continua:

Devarim (Deuteronômio). 30:14

14 Pois isso está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para que o observes.

A expressão é importante: muito perto de ti.

Às vezes imaginamos a transformação como algo distante. Pensamos na pessoa que gostaríamos de ser, na disciplina que gostaríamos de possuir ou na vida espiritual que gostaríamos de alcançar. Olhamos para a distância entre onde estamos e onde desejamos chegar e nos sentimos desanimados.

Moshé nos orienta a olhar de outra maneira. O caminho começa perto.

O primeiro passo

Talvez não consigamos transformar toda a nossa vida hoje. Ainda assim, quase sempre existe alguma coisa que podemos fazer: estudar alguns minutos, fazer uma oração com mais atenção, reconhecer um erro, pedir perdão, procurar alguém de quem nos afastamos, abandonar uma atitude que sabemos que não nos faz bem ou cumprir melhor uma responsabilidade que já está diante de nós.

A transformação não precisa começar com algo extraordinário.

O profeta Miquéias resume de maneira simples aquilo que o Eterno espera do ser humano:

Mihá (Miquéias). 6:8

8 A ti foi dito, ó homem, o que é bom e o que o Eterno exige de ti: somente que saibas agir com justiça, amar a benevolência e caminhar discretamente com o teu Deus!

Há profundidade nessas palavras, mas também existe simplicidade. Justiça, bondade e humildade aparecem nas escolhas comuns da vida. É justamente nessas escolhas que nosso caminho começa a mudar.

Voltar também começa perto

Elul é tradicionalmente um período de reflexão, retorno e preparação.

A palavra teshuvá, normalmente traduzida como arrependimento, também carrega o sentido de retorno. Retornar pressupõe reconhecer que existe um caminho para o qual podemos voltar.

O profeta Zacarias registra o chamado:

Zehariá (Zacarias). 1:3

3 Fala-lhes, pois: Assim disse o Eterno dos Exércitos: Retornai a Mim – diz o Eterno dos Exércitos – e Eu voltarei a vós! – falou o Eterno dos Exércitos.

O retorno começa quando percebemos onde estamos e decidimos mudar nossa direção. Nem sempre teremos condições de corrigir imediatamente todas as consequências de nossas escolhas. Algumas mudanças exigem tempo, algumas relações precisam ser reconstruídas lentamente e certos hábitos foram formados durante anos, por isso precisarão de perseverança para serem modificados.

Mesmo assim, existe um primeiro movimento. E esse movimento pode acontecer hoje.

Isaías também faz um convite semelhante:

Ieshaiáhu (Isaías). 55:6-7

6 Buscai o Eterno no melhor momento para encontrá-lo; clamai por Ele quando perto de vós está!

7 Abandone o perverso seu caminho, e o iníquo, seus pensamentos; voltai para o Eterno, e Ele Se compadecerá; e para o nosso Deus, porque Ele é magnânimo em Seu perdão.

Novamente encontramos a ideia da proximidade. O Eterno está perto. O caminho está perto. A possibilidade de retornar está perto.

Não precisamos enxergar todo o caminho

Um dos motivos pelos quais adiamos mudanças é o desejo de saber exatamente como tudo acontecerá.

Queremos enxergar o caminho inteiro antes de dar o primeiro passo.

A sabedoria bíblica, porém, apresenta o crescimento como um processo:

Mishlê (Provérbios). 4:18

18 O caminho dos íntegros, porém, é como a luz do amanhecer, cujo brilho vai aumentando até o dia alcançar a sua plenitude.

A aurora não transforma a noite em pleno dia de uma só vez. A luz cresce pouco a pouco.

Assim também acontece conosco. Uma escolha correta prepara a próxima. Um pequeno hábito pode produzir uma mudança maior. Uma conversa pode iniciar uma reconciliação. Alguns minutos de estudo podem despertar novamente o desejo pela Torah.

O importante é começar.

O que está perto de você hoje?

Talvez a pergunta para este período seja simples: Qual é o passo que já está ao meu alcance?

Pode ser uma mudança pequena, quase invisível para outras pessoas: abrir novamente um livro que deixamos de estudar, dedicar alguns minutos à oração, controlar uma palavra antes de pronunciá-la, procurar alguém, agradecer, reconhecer um erro ou cumprir algo que estamos adiando há semanas.

Elul nos lembra que retornar ao Eterno também acontece nessas decisões.

Não precisamos resolver toda a nossa vida em um único dia. Precisamos responder ao que já conseguimos enxergar.

Conclusão: Quando ouvimos, precisamos responder

Tehilim traz uma palavra especialmente apropriada para este momento:

Tehilim (Salmos). 95:7-9

7 pois Ele é nosso Deus e nós somos Seu povo. Ele é nosso pastor e nós somos o rebanho que Ele guia neste mundo, desde que Sua voz obedeçamos.

8 Que nossos corações e nossas mentes saibam compreender Sua exortação. Não permitais que se endureçam vossos corações como em Merivá, como aconteceu em Massá, no deserto,

9 quando vossos pais, mesmo tendo presenciado Meus feitos, duvidaram de Mim.

O salmo nos lembra que ouvir a voz do Eterno envolve mais do que perceber aquilo que precisa ser feito. É necessário permitir que essa voz alcance nosso coração e produza uma resposta.

O endurecimento do coração pode acontecer de muitas maneiras: pela resistência, pelo medo de mudar ou simplesmente pelo hábito de adiar. Sabemos que precisamos corrigir alguma atitude, retomar um compromisso, reparar uma relação ou nos aproximar novamente da Torah, mas continuamos deixando para depois.

É justamente aí que o ensinamento de Moshé se torna tão próximo de nós: “A coisa está muito próxima de ti.”

Talvez não seja possível corrigir tudo de uma vez. Mas podemos começar pelo que já conseguimos compreender.

Elul nos oferece esse espaço de escuta e retorno, um período para observar nossa vida com mais atenção, reconhecer o que precisa ser ajustado e transformar essa percepção em atitude.

Se já conseguimos identificar o próximo passo, ele provavelmente não está longe. O desafio é manter o coração aberto e caminhar.