Há textos da Tanach que parecem ganhar uma força especial em determinados períodos do ano. Durante o mês de Elul, um deles ocupa um lugar muito particular na tradição judaica: o Tehilim 27.
Em muitas comunidades judaicas, esse salmo é acrescentado às orações diárias a partir de Rosh Chodesh Elul. Há diferenças entre os costumes quanto ao momento da oração e também até quando ele é recitado. Algumas tradições seguem até Yom Kipur, outras até Shemini Atzeret, enquanto o costume Chabad segue até Hoshaná Rabá.
O costume possui diferentes explicações. Algumas relações com Rosh Hashaná e Yom Kipur aparecem no Midrash, enquanto outras conexões foram desenvolvidas posteriormente por sábios, comentaristas e mestres da tradição judaica. Em conjunto, elas apontam para temas muito próprios de Elul: confiança, teshuvá, misericórdia e aproximação do Eterno.
Por isso, uma pergunta acompanha todo este estudo: Qual é a conexão entre o Salmo 27 e o mês de Elul?
O Eterno é a luz que me guia
O salmo começa com uma declaração muito conhecida:
“O Eterno é a luz que me guia e a fonte de minha salvação; a quem, então, temerei? Ele assegura minha existência; o que eu haveria de recear?”
Davi começa falando sobre luz. A própria tradução da Sêfer torna essa ideia muito clara: o Eterno é “a luz que me guia”. A imagem é de direção e segurança. Quando há luz, conseguimos enxergar melhor o caminho e também perceber onde estamos.
O Midrash apresenta uma leitura específica desse primeiro verso. Em Vayikra Rabbah 21:4, os sábios relacionam “minha luz” a Rosh Hashaná e “minha salvação” a Yom Kipur.
Essa interpretação é uma das conexões mais antigas entre o Salmo 27 e esse período do calendário judaico. Rosh Hashaná abre um tempo de julgamento, avaliação e renovação; Yom Kipur representa o ponto máximo da teshuvá e do perdão.
Mais adiante, encontramos outro verso que também foi associado às festas desse período:
“Se uma calamidade ocorrer, Ele me abrigará em Seu Tabernáculo; guardar-me-á no recôndito de Sua Tenda, erguer-me-á acima do cume das montanhas.”
A Sêfer traduz o termo como “Tabernáculo”, porém, no texto hebraico, aparece a palavra בְּסֻכּוֹ - besukô, “em Sua sucá”. Essa expressão foi posteriormente relacionada a Sucot.
O Salmo 27, portanto, acabou sendo associado a todo esse percurso: a preparação de Elul, Rosh Hashaná, Yom Kipur e Sucot.
Elul escondido dentro do salmo
Existe outro detalhe muito interessante próximo ao final do Salmo 27:
“Eles me fariam desesperar, não fora minha fé perseverante de que alcançaria neste mundo a bondade do Eterno.”
No texto hebraico, o verso começa com a palavra:
לולא - lulê
As letras que formam לולא - lulê, quando reorganizadas, formam:
אלול - Elul
Rabi Tzadok HaCohen de Lublin chama atenção para essa ligação em sua obra Pri Tzadik, ao tratar do mês de Elul. Ele relaciona essa palavra ao período de correção das atitudes e preparação para o novo ano.
A conexão fica ainda mais significativa quando observamos o sentido do verso. Davi fala sobre uma fé perseverante que continua esperando pela bondade do Eterno. Isso também faz parte de Elul.
Olhar para o ano que passou exige honestidade. Algumas coisas aconteceram como esperávamos, outras não. Algumas escolhas foram boas e outras precisam ser corrigidas. Existem situações que compreendemos e outras que ainda permanecem sem resposta. Mesmo assim, seguimos adiante com confiança.
Elul nos convida a reconhecer aquilo que precisa mudar sem perder a esperança no caminho.
Treze vezes o Nome
Há outro detalhe tradicionalmente relacionado ao mês de Elul: o Nome Divino de quatro letras aparece treze vezes no Salmo 27.
Esse número foi relacionado aos Treze Atributos de Misericórdia, revelados a Moshê após o episódio do bezerro de ouro. Em Shemot encontramos:
“Eterno, Eterno, Deus piedoso e misericordioso, tardio em irar-Se e grande em benignidade e verdade...”
A relação é especialmente significativa em Elul. Segundo a tradição judaica, foi nesse período que Moshê voltou ao Sinai para receber as segundas tábuas. Os quarenta dias que começam em Rosh Chodesh Elul conduzem até Yom Kipur, quando esse processo alcança seu ponto culminante com o perdão.
Por isso, esses dias são chamados de yamim ratzon, dias especialmente favoráveis à teshuvá e à aproximação do Eterno.
Uma das primeiras referências impressas conhecidas ao costume de recitar o Salmo 27 nesse período aparece no Shem Tov Katan, do cabalista Rabi Binyamin Benish Cohen, publicado em 1706.
Entre as explicações posteriormente associadas ao costume está justamente a presença do Nome Divino treze vezes no salmo, em paralelo aos Treze Atributos de Misericórdia.
Elul nos coloca, assim, diante de uma ideia essencial: sempre existe a possibilidade de retorno.
“Um anseio manifestei”
Um dos versos centrais do salmo diz:
“Um anseio manifestei ao Eterno e sua realização buscarei – que eu habite em Sua Morada por todos os dias de minha vida, a fim de poder contemplar Sua glória e buscar a compreensão de Seus mandamentos.”
O texto hebraico começa com achat sha'alti, literalmente uma única coisa pedida. A tradução da Sêfer expressa essa ideia como “um anseio manifestei”. Davi concentra sua busca.
Isso combina muito com Elul. Durante o ano, acumulamos preocupações, compromissos, desejos e projetos e, com facilidade, aquilo que realmente importa perde espaço entre tantas outras coisas.
Elul oferece a oportunidade de reorganizar prioridades. Podemos observar nossa vida e perguntar o que precisa novamente de atenção, qual atitude sabemos que deve ser corrigida, que compromisso foi deixado de lado e em que área precisamos voltar a caminhar com mais fidelidade.
Davi apresenta um desejo central: permanecer próximo da Presença do Eterno e compreender Seus caminhos.
Essa ideia nos deixa uma pergunta importante para Elul:
Se escolhêssemos uma mudança significativa para levar conosco para o próximo ano, qual seria?
Começar por uma mudança concreta pode produzir um caminho muito maior.
“Buscai Minha presença”
Poucos versos depois encontramos outra frase fundamental:
“Meu coração compreendeu Teu mandamento – ‘Buscai Minha presença’ – e Tua presença ele busca.”
Talvez essa seja uma das frases que melhor explicam por que este salmo combina tanto com Elul. O verbo central é buscar.
Teshuvá significa retorno, e todo retorno envolve movimento. Algo dentro de nós percebe que existe um caminho a ser retomado e começa a se mover novamente em sua direção.
Essa ideia também aparece numa conhecida interpretação do próprio nome do mês de Elul.
Em Shir HaShirim encontramos:
“Eu sou do meu Amado e o meu Amado é meu.”
Em hebraico:
אני לדודי ודודי לי
Ani ledodi vedodi li.
As primeiras letras das quatro palavras formam:
אלול - Elul
Essa associação aparece na tradição judaica e é registrada, entre outras fontes, na Mishná Berurá 581:1. O mesmo comentário observa que as letras finais dessas palavras possuem valor numérico de quarenta, relacionando-as aos quarenta dias entre Rosh Chodesh Elul e Yom Kipur.
A expressão começa com Ani ledodi (Eu sou do meu Amado). Há aqui um movimento de aproximação que começa conosco. A pessoa decide voltar, buscar, corrigir e se aproximar.
É uma ideia muito próxima daquela apresentada por Davi:
“Buscai Minha presença.”
O Rei está no campo
Outra imagem muito conhecida sobre Elul foi desenvolvida por Rabi Shneur Zalman de Liadi, o Alter Rebbe, no Likkutei Torah. Ele compara esse período ao momento em que o rei está no campo.
Antes de entrar na cidade e retornar ao palácio, o rei passa pelo campo. Enquanto está ali, as pessoas podem aproximar-se dele com uma facilidade que não teriam dentro do ambiente formal do palácio. A parábola descreve o rei recebendo todos de maneira favorável.
A imagem procura explicar uma característica espiritual de Elul: a proximidade do Eterno pode ser buscada dentro da própria vida cotidiana.
O cotidiano continua. Trabalhamos, cuidamos da família, enfrentamos compromissos, tomamos decisões e resolvemos os problemas comuns de cada dia. É justamente dentro desse “campo” que Elul nos convida a buscar o Eterno.
A frase do Salmo 27 ganha, então, ainda mais força:
“Tua presença ele busca.”
A aproximação não precisa esperar por um momento extraordinário. Ela pode começar exatamente onde estamos.
Confiança e fragilidade no mesmo salmo
O Salmo 27 também chama atenção pela maneira como diferentes sentimentos aparecem ao longo do texto.
Davi declara:
“Ainda que me cerque um exército, não se deixará abalar meu coração e mesmo que desfechem guerra contra mim, minha fé permanecerá inabalável.”
Pouco depois, ele ora:
“Escuta, ó Eterno, minha voz, apieda-Te de mim e concede-me Tua resposta quando a Ti eu clamar.”
Confiança e necessidade de ajuda aparecem dentro da mesma oração. Davi reconhece suas dificuldades, pede auxílio, procura direção e continua confiando. Essa combinação também tem muito a ensinar durante Elul.
O exame da própria vida exige honestidade. Há motivos de gratidão, escolhas que precisam mudar, relacionamentos que podem ser reparados, hábitos que precisam ser revistos e caminhos que talvez precisem ser retomados.
Reconhecer essas coisas faz parte da teshuvá. O Salmo 27 mostra que podemos fazer isso mantendo a confiança no Eterno e a esperança de que mudanças são possíveis.
Confiança também exige perseverança
O último verso do salmo diz:
“Confia pois Nele! Assim, fortalecer-se-á teu coração por depositares no Eterno toda a tua esperança.”
É uma conclusão muito apropriada para Elul.
Algumas mudanças são rápidas. Outras exigem tempo, disciplina e repetição. Há decisões que conseguimos tomar em um único momento, mas sua construção acontece aos poucos, nas escolhas dos dias seguintes.
Teshuvá também funciona assim. Reconhecemos algo, decidimos corrigir, damos o primeiro passo e continuamos caminhando.
O Salmo 27 termina colocando confiança, fortalecimento do coração e esperança dentro do mesmo movimento.
Afinal, qual é a conexão entre o Salmo 27 e Elul?
A conexão acontece em várias camadas. O Midrash relaciona “minha luz” a Rosh Hashaná e “minha salvação” a Yom Kipur. A palavra hebraica besukô, no verso 5, foi relacionada a Sucot. A palavra lulê, no verso 13, contém as mesmas letras de Elul. O Nome Divino aparece treze vezes e foi associado aos Treze Atributos de Misericórdia. O salmo também fala repetidamente sobre confiança, busca e aproximação, temas que ocupam um lugar central durante esse mês.
Talvez a conexão mais profunda esteja no movimento que percorre todo o salmo. Davi procura luz, direção, proteção, proximidade e coragem para continuar. Ele reconhece dificuldades, busca a presença do Eterno e permanece confiante.
Elul nos convida a fazer algo semelhante.
É tempo de olhar novamente para nossa vida, reconhecer aquilo que precisa ser corrigido e aproximar um pouco mais nosso coração do Criador. Podemos começar escolhendo uma atitude concreta: uma reconciliação, uma mudança de hábito, mais tempo para Torah e oração, mais atenção à família, mais cuidado com nossas palavras ou a retomada de algum compromisso que sabemos ser importante.
O Salmo 27 começa afirmando que o Eterno é “a luz que me guia” e termina falando de confiança e esperança.
Entre uma coisa e outra existe um caminho.
Elul é um bom tempo para percorrê-lo.
Fontes e referências
- Bíblia Hebraica Sêfer, tradução de David Gorodovits e Jairo Fridlin - Tehilim 27; Shemot 34:6-7; Shir HaShirim 6:3.
- Vayikra Rabbah 21:4 - associação de “minha luz” com Rosh Hashaná e “minha salvação” com Yom Kipur.
- Elef LaMateh sobre Mateh Ephraim 581 - associação do verso sobre a sucá com Sucot.
- Shem Tov Katan, Rabi Binyamin Benish Cohen - uma das primeiras referências impressas conhecidas ao costume de recitar o Salmo 27 durante o período.
- Pri Tzadik, Rabi Tzadok HaCohen de Lublin, ensinamentos sobre Elul - relação entre לולא - lulê e אלול - Elul.
- Mishná Berurá 581:1 - relação de Ani ledodi vedodi li com Elul e com os quarenta dias entre Rosh Chodesh Elul e Yom Kipur.
- Likkutei Torah, Re''eh 32b, Rabi Shneur Zalman de Liadi - parábola do “Rei no campo” e sua relação com Elul.
- Chabad.org, Yehuda Shurpin - “Why Do We Say L’Dovid Hashem Ori (Psalm 27) During the Month of Elul?” - levantamento das fontes e dos diferentes costumes relacionados à recitação do Salmo 27.
